O conceito de família está amplamente
enraizado na nossa sociedade. Porém, as famílias não são todas iguais. Além de
ser diferentes nas diferentes culturas, trata-se de um conceito dinâmico, que,
no passar do tempo se modifica com a sociedade à que pertence. Será dentro
deste conceito de família que observaremos para as variadas nuances do conceito
de lealdade.
No entanto, a maioria de nós, sabe o que é e experimenta o fato de pertencer a uma família. E não se trata só de ter o mesmo sobrenome no documento, ou morar baixo de um mesmo teto. Todo isso define a uma família, mas, há mais…
Há um sentimento que surge de um
vínculo profundo, invisível mas tangível.
A família está intrinsecamente ligada
a laços geracionais, heranças, memórias e influências do passado, que moldam
nossa personalidade e nossa interação com a realidade.
Experimentar e tentar explicar esse
pertencimento à família, dependendo de cada caso, é uma tarefa extremadamente
complexa e pode ser considerada a coluna dorsal da construção de nossas vidas,
fortalecendo escolhas através de vínculos sólidos ou causando dor e vazio na
ausência desses laços
Ninguém pode existir sem
pertencimento.
Sem excepções.
Este pertencimento cria vínculos intransferíveis com as linhagens familiares da mãe e do pai, vínculos que moldam nossa existência e decisões.
Trata-se de vínculos extremadamente fortes.
Aderir a eles ou negá-los, pautará a nossa existência.
A força desse vínculo é alimentada por aspectos biológicos, psicológicos e socioculturais. O instinto desempenha um papel fundamental, assim como a identidade construída a partir de características físicas, comportamentais e históricas, reforçando o sentido de pertencimento.
Ao observarmos a família como conceito elementar e sistêmico dentro da sociedade, também podemos entender como as suas características, reforçam e aperfeiçoam estes vínculos, através das interconexões entre seus membros, dos padrões de comunicação, dos aspetos hierárquicos e da capacidade adaptativa.
Entre tanto, uma das causas da força deste vínculo, é o senso de identidade que se ergue a partir da história familiar, das suas normas e regras, das experiencias que ativam e fortalecem seus valores compartilhados, as tradições e a narrativa que une os membros. Todo isto, cria e fortalece os vínculos, mas, além de criá-los, gera a necessidade de pertencer.
A partir deste senso forte de
identidade, a nossa atitude na vida ficará pautada pelo “jeito familiar” de
agir e de fazer, de pensar, de escolher e de decidir.
Certo é que cada pessoa é única assim
como as suas circunstâncias. Por tanto não há regra para medir a incidência
dessa identidade familiar nos indivíduos. Mas, incide!
E incide principalmente agindo na
nossa consciência, e, para ser mais exatos, na consciência que chamamos de “pessoal”
nas Constelações Familiares, pois é esta consciência a que nos diz se estamos
certos ou errados em relação à identidade familiar. A Consciência pessoal, em
todo momento nos “avisa”, através de sentimentos de culpa ou de inocência, se é
que estamos fazendo de forma certa em relação ao que se espera de nós, se
estamos tomando decisões apropriadas, se nos afastamos ou ficamos próximos
dessa identidade familiar.
Para evitar esse sentimento de culpa
por botar em risco o nosso pertencimento à família, muitas vezes desistimos de
fazer o que nos parece certo. Nem sempre estamos dispostos a ser “julgados” por
sermos diferentes a aquilo que se espera de nós, por outros integrantes da
família que considerem que estamos desrespeitando a “identidade familiar”.
Nesse sentido, a lealdade, muitas vezes vista como uma virtude, pode ser uma faca de dois gumes. A lealdade cega, desprovida de questionamento, pode levar a escolhas prejudiciais. A consciência pessoal, que alerta sobre o risco de perder o pertencimento ao afastar-se das expectativas familiares, pode levar a decisões equivocadas em nome de nos manter dentro da conformidade.
É uma necessidade própria do
pertencimento, ser fiel as características do grupo familiar, ainda que estas,
nem sempre sejam corretas e, em ocasiões, devamos agir contra princípios o leis
maiores.
Essa fidelidade, essa lealdade,
aplicada sem ponderação e seguindo trilhas e padrões arcaicos, nos dando a
falsa sensação de estarmos no caminho certo, é uma fonte de emaranhamentos
inesgotável.
E este é o ponto aonde queríamos
chegar. A fidelidade ou a lealdade que nossa consciência defende como um alto
padrão ético e moral, como uma característica que enaltece a nossa índole, e
nos faz merecedor de pertencer à família, por fazermos tudo aquilo que se
espera de nós, nem sempre nos conduz a “bom porto”.
A lealdade, em tanto atitude de respeito aos princípios e regras que
norteiam a honra e a probidade do grupo familiar, assim como a submissão aos
compromissos assumidos, traz consigo o peso moral da justiça, da honra e do
respeito, se constituindo em um comportamento que retrata os mais altos valores
humanos.
Porém, a avaliação da lealdade como boa o má, como apropriada ou
desequilibrante, depende do contexto específico e das circunstâncias
envolvidas.
Dentro de um matrimônio, por exemplo, se o esposo ou a esposa se mantêm inflexivelmente leal à família de origem e suas costumes, muito provavelmente surgirão, mais cedo ou mais tarde, pontos de conflito que podem até inviabilizar esse matrimônio.
A lealdade então, não é universal; é relativa aos padrões éticos e morais da sociedade. Dentro de uma mesma sociedade, pode variar em relação a diferentes aspectos da vida.
Cada Sistema de pertencimento apresenta lealdades diferentes e as vezes até contraditórias, que, no seu momento, deverão ser resolvidas.
A lealdade então é um conceito relativo; que apresenta dois lados. Se sou leal a tal questão, serei desleal a outra. E este raciocínio não faz parte da filosofia sistêmica que sustenta o trabalho de harmonização nos relacionamentos humanos.
A lealdade então, pelas suas características, é uma atitude que supõe a existência de dois lados separados. É um divisor de águas em qualquer conflito, em relação a “de que lado estou”. E então, a lealdade, assim como outros conceitos como o de “resiliência”, como o de “perdão”, como à ideia de qualquer sacrifício que se faça por amor, não oferece soluções sistêmicas.
Mas, é interessante observar que, no dia a dia, agimos em geral à sombra da lealdade como princípio direcionador do nosso caráter, sem nos deter nem um instante para verificar a validez deste conceito dentro de um marco de inter-relacionalidade um pouco mais elevado e conciliador. Assim, chegamos convencida e displicentemente, a tomar decisões e ter atitudes totalmente satisfatórias para nossa consciência, e, ao mesmo tempo, equivocadas e contraproducentes para as perspectivas da nossa vida e para a vida dos outros.
Em um exemplo clássico dentro de uma família, a lealdade, pode nos levar
a excluir a um familiar que de alguma forma é diferente, sem olhar
suficientemente às causas por trás do seu comportamento, ou a condenar (que é
uma forma de excluir) um vício ou uma traição, como sendo uma atitude leviana,
sem termos nenhum conhecimento dos reais origens desse comportamento, o que
significa que nós colocamos soberbamente por cima dessas situações, sem real
conhecimento das causas, e julgamos e excluímos transgredindo as três leis
sistêmicas de uma vez. Em outro exemplo,
a lealdade pode nos levar inconscientemente a nós sacrificar, seja na saúde, na
felicidade ou no êxito, para não nos afastar dos padrões de comportamento nem
dos sistemas de crença dos nossos maiores.
A lealdade bem compreendida, exercida no plano superior ou espiritual,
promove relacionamentos saudáveis e contribui para um desenvolvimento generoso
e sistêmico. No entanto, a lealdade mal compreendida, quando cega ou baseada em
padrões antiquados, pode resultar em emaranhamentos inesgotáveis.
Daí que, a lealdade, não é uma virtude universal e sim um conceito que
deve ser ressignificado em cada caso, já que ela pode ser bem ou mal
compreendida, dependendo das circunstancias de cada indivíduo e de cada
sistema.
Este chamado à ressignificação da lealdade visa questionar, de maneira
objetiva e imparcial, a verdadeira natureza desse conceito em cada contexto.
A lealdade bem compreendida e aquela que se exerce no plano superior ou
espiritual do qual falava Bert Hellinger. Qualquer outro tipo de lealdade deve
ser ressignificada objetiva e imparcialmente, para definir se em realidade não
se trata de um outro conceito, como por exemplo: uma ideia limitante, um amor
menor (ao borde do abismo), um sentimento de soberba enrustido em boas
pretensões ou uma forma de seguir a lei de menor esforço.
A lealdade, quando mal compreendida, pode excluir, julgar e sacrificar sem uma compreensão profunda das causas subjacentes..
E você... É leal a que?
Sua lealdade é daquelas inquebrantáveis?
.. sei não...
Talvez seja hora de ressignificar!
Um forte abraço a todos.
Muita luz
Até breve!
Comentários
Postar um comentário